Salvador

12 03 2011

Voltando da Bahia cheguei a conclusão que uma mistura bem dosada de pai de santo, Freud e Santo Expedito cura tudo menos “pobreza de espírito”. Isso não tem jeito…

Tem gente que entra em igreja, terreiro ou Maracanã da mesma forma como se estivesse entrando em uma padaria, ou uma academia de ginástica. Essas pessoas não têm salvação.

Calamidade Natural

Dentre as coisas do mundo

Que sinto mais respeito

Escolho o barco que navega sozinho

Dentre as coisas do mundo

que mais sinto carinho

Escolho a chuva que desce calada

Dentre as coisas do mundo que mais sinto vontade

A silenciosidade…  é a silenciosidade…

Da calamidade natural

Do vento que dobra o tronco

Das coisas que não tem jeito

Do tempo que não tem freio

da calamidade natural

Por Leonardo Ribeiro





Estrela sem fim

2 03 2011

 

Outro dia estava voltando para casa após uma boa dúzia de cervejas pela comemoração do aniversário do Rio que se deu lá pela Tijuca próximo a mais nova região boêmia da cidade e eis que vejo um homem trajando uma boina fora de época e com ares de um grande velho amigo. Ele me viu, sorriu e me convidou para a “saideira” com um típico sotaque castelhano que não me deixou dúvidas: Era o grande poeta! O grande Pablo Neruda em pessoa! Mas ele não havia falecido em 1973? Que se dane. Sentei-me a mesa.

 Óbvio que por um momento pensei que a visão do grande mestre só poderia ser obra da cerveja, porém , sei também que no Rio de Janeiro tudo é possível. Além disso, não deve fazer mal para a saúde trocar um dedo de prosa com assombração ou alucinação seja ela quem for, ainda mais se tratando do grande Neruda.

Como não poderia ser diferente o resultado do encontro foi uma conversa de maluco. Reproduzirei os trechos que não foram apagados pela ressaca.

 Neruda me disse:

“(…) Tu perguntas o que a lagosta tece
Lá embaixo…
Com seus pés dourados.
Respondo que o oceano sabe.“

 Eu digo:

 Sim! O mar! Nosso grande pai! Foi fecundando a terra que o mar criou a praia. O resto se deu quase que automaticamente…

 E Neruda Perguntou com ar de mistério:

“E por quem a medusa espera,
em sua veste transparente?
Está esperando pelo
tempo, como tu.”

 Eu disse:

 Meu amigo! Esperamos todos pelo tempo sem a menor esperança… me pergunto o que podes me dizer sobre a morte…

 Neruda diz:

 “Eu respondo cantando como
Unicórnio do mar, arpoado, morre.”

Eu disse:

 E sobre a vida, o que sabes?

 Neruda respondeu:

 “ a vida…
Em seus estojos de jóias,
É infinita como areia,
Incontável, pura; e o tempo,
Entre as uvas cor-de-sangue…
Tornou a pedra dura e lisa,
Encheu a água-viva de luz…
Desfez o seu nó, soltou
Seus fios musicais…
De uma cornucópia feia
De infinita madrepérola.”

 Eu Pergunto intrigado:

 Quem somos nós?

 Neruda é humilde e sabe que só pode responder quem és:

“Sou só a rede vazia diante dos
Olhos humanos na escuridão…
E de dedos habituados à longitude
Do tímido globo de uma laranja.
Caminho, como tu, investigando
A estrela sem fim…
E em minha rede, durante
A noite, acordo nu.
A única coisa capturada
É um peixe…
Preso dentro do vento
Investigando a estrela sem fim…”

 Depois de um longo silêncio Neruda se despediu, deixou algumas moedas para a cerveja e caminhou sozinho pra dentro da noite e eu paguei a conta e voltei pra casa pensativo… Investigando a estrela sem fim…

por Leonardo Ribeiro

* As passagens entre aspas são trechos do poema “As uvas e o vento” de Pablo Neruda.





O Zé Alguém – parte II

19 02 2011

Jardim Botânico

Milhares de bilhões anos se passaram, novos mundos surgiram e antigos planetas desapareceram e mesmo assim o célebre caso de José Peixoto jamais foi esquecido. E os  Alienígenas freqüentemente retornavam a esse caso como o precursor de um novo paradigma sobre o funcionamento humano.

José, mas conhecido como “Peixotinho”, nasceu no bairro do Grajaú e viveu uma vida simples sob todos os aspectos, exceto pelo fato de ter protagonizado durante toda a sua vida, sem saber, uma espécie de Big Brother intergaláctico com fins científicos.

Conforme os anos passavam a platéia científica extraterrestre percebia que a cobaia humana era diferente de seus ancestrais. Não queria ser rei, artista, mestre, sábio, perito ou presidente. O que ele queria mesmo era ser convincente.

 Ser convincente tinha algo a ver com as roupas que se veste as fotos que se tira. É uma espécie de articulação entre um monte de objetos e um monte de expectativas que não se sabe ao certo de quem é, mas que de certa forma se encaixam tão bem e estão sempre em promoção. Conceito difícil de definir.

Bem, voltando ao José Peixoto, posso dizer que ele viveu sua vida sem pensar muito sobre tudo isso. Criado por família de classe média recebeu uma educação de primeira classe em escolas particulares, ou melhor, recebeu uma educação deveras convincente. Uma vez por mês visitava parques e reservas florestais. Plantou feijão no algodão, plantou pau-brasil no Jardim Botânico, separou o lixo reciclável durante um tempo.

Foi nessa onda ecológica que Peixotinho virou surfista, ele tinha prancha, luzes no cabelo, pele bronzeada. Infelizmente não teve tempo para aprender a surfar porque afinal de contas, as férias de verão duram apenas três meses.

Alias, a escola é um dos epicentros de onde emanam uma série ininterrupta de pessoas convincentes (em termos de intensidade só perde para as universidades). Vocês devem conhecer a idéia central: durante mais de 10 anos os alunos presenciam um desfile fantasias e adereços onde certifica-se com um boletim de boas notas os alunos mais convincentes.

Nesse ritmo José Peixoto se formou engenheiro: nada mais concreto, nada mais real, nada mais útil, nada mais convincente. Ele também se casou com uma mulher bem convincente tão concreta, real e útil.

Ao fim de sua “vida-experimento” ainda restou uma pergunta: afinal de contas, a quem se pretendia convencer, mas essa questão ainda ficou sem resposta durante muito tempo após a extinção de toda a nossa gente.

Por Leonardo Ribeiro





O Zé Alguém – parte I

9 02 2011

Quando o povo do céu chegou no Rio de Janeiro estacionaram seus discos voadores na enseada de botafogo e na Lagoa Rodrigo de Freitas. Eles adoravam calor e umidade por isso se sentiram em casa. A chegada dos ETs causou tamanho frisson em Ipanema e Copacaban que logo a culinária, a moda e toda sorte de penduricalhos e futilidades virtuais ou reais passaram a remeter às supreendentes aeronaves. Porém, Passados dois meses os ETs foram abruptamente esquecidos ou, no mínimo, soterrados pela nova sensação do verão: um pingüim encontrado no Leme que juravam ser capaz de prever o futuro. O pingüim vidente chegou de mansinho pela internet até ser “adotado” por certa marca de cerveja e virar sensação nacional até meados de abril.

A verdade era que para a  cidade das celebridades os ETs eram tão discretos e educados que causaram terríveis transtornos a imprensa “especializada”. Constataram com muito desânimo que os alienígenas davam mais audiência quando não existiam.

Algumas fraudes foram tentadas com o objetivo de gerar algumas manchetes. Uma vez, por exemplo, fotografaram um homenzinho verde escondendo dólares na cueca na presença de um figurão da política. Porém uma CPI provou que ETs não usavam cuecas e tudo foi esquecido.

Sendo assim, Com o fracasso da “ET-mania” os pacíficos homens-verdes puderam retomar em paz ao seu anonimato, como haviam previsto, e finalmente puderam iniciar seus estudos a respeito da fabulosa criatura humana. Primeiro tentaram apreender o ser humano através de fórmulas e abstrações. Fracassaram miseravelmente por conta da enorme quantidade de exceções a qualquer regra. Por isso debruçaram-se sobre uma espécie de método antropológico que consistia em observar nos mínimos detalhes a vida de uma única cobaia que no caso se chamava José Peixoto.

 Continua…

Por Lenardo Ribeiro





Faroeste Conjugal

2 02 2011

Um pequeno barraco de madeira escura erguia-se corajosamente contra o sol carrasco daquele dia contrastando com a palidez do solo seco que o cercava. Sob aquele teto uma bela mulher de face endurecida pela vida difícil de mãe solteira em terras tão hostis preparava zelosamente o almoço para seu único filho que tinha saído em busca de algum trabalho, quando um barulho chamou sua atenção.

Ouviu o ranger da porta se abrindo e rapidamente puxou de um suporte abaixo da mesa um velho rifle que foi do seu pai nos idos tempos em que servia à milícia local, engatilhou-a e a apontou para a entrada da cozinha:

- QUEM ESTÁ AI?

Parando calmamente e sacando um cigarro e uma caixa de fósforos o homem trajado como se estivesse há muito tempo na estrada, cumprimentou-a levantando rapidamente o chapéu após levar o cigarro à boca, e disse:

- Não reconhece o pai do seu filho? Somente a minha Tibíla teria coragem suficiente para apontar uma arma para o homem mais procurado da área- disse apoiando-se jocosamente na lateral da porta examinando-a dos pés a cabeça, enquanto enterrava todo o afeto que um dia teve por aquela bela mulher de cabelos cor de pólvora.

Tibíla era uma parece de pedra prestes a desmoronar:

- O que você quer? Porque não desaparece de uma vez? – Uma lágrima desceu de seu olho esquerdo e foi rapidamente limpa com uma das mãos, a voz evidenciava um desespero contido.

- Eu vim buscar uma coisa que te dei há muitos anos atrás – respondeu o homem em tom grave.

- Deixe-o em paz! – disse Tibíla exaltando-se e pensando em seu filho.

- Acalme-se.

- NÃO! – gritou Tibíla apertando o gatilho.

Mas o esforço da valente mulher foi em vão, pois, com seu reflexo de víbora, o homem sacou sua pistola e abriu um buraco na testa dela, permitindo apenas que a bala do rifle fizesse uma abertura do tamanho de uma laranja no teto.

A aba do chapéu quase conseguiu ocultar um projeto de lágrima que surgiu em seus olhos, porém não conseguiu conter o alívio de saber que ainda era o pistoleiro mais rápido da região, ou pelo menos o mais sortudo.

por Leonardo Ribeiro





A Era dos Deuses

27 01 2011

Fotografia vencedora do concurso fotos cariocas (2008)

 

Era uma vez uma pequena galáxia chamada Via Láctea, nessa galáxia existia uma estrela minúscula chamada Sol e ao redor dessa pequena estrela girava um planeta quase insignificante. Nesse planeta existiram deuses maravilhosos, é  por conta deles que essa história deve ser contada.

O pai de todos os deuses se chamava Linguagem. Da costela de Linguagem surgiu uma nova deusa conhecida como Religião. Foi Linguagem quem fez os homens, o céu e a terra, o dia e a noite colocando ordem onde antes era puro caos.

Porém, da união incestuosa entre Linguagem e sua filha Religião, nasceu Política, o primogênito. E da união adúltera entre Religião e outro Deus desconhecido nasceu Filosofia, a bastarda.

Porém, em um belo dia de primavera, Política se apaixonou pela bela Filosofia e os dois viveram um belíssimo caso de amor que gerou um robusto bebê que foi batizado com o nome de Ciência aquele cujo destino era conquistar.

Infelizmente o romance entre Política e Filosofia não durou muito, fascinada pela vida dos homens Filosofia acabou traindo seu marido Política com Liberdade, o deus renegado.

Linguagem que tudo sabia ficou horrorizado pois a proximidade do deus renegado ameaçava perturbar as suas leis eternas, então tramou um golpe para desmoralizar Filosofia e dar um jeito em Liberdade. Contou a Política sobre a traição de sua esposa. Política enlouquecido pelo ciúme assassinou Liberdade e roubou a jovem Ciência condenando Filosofia a solidão eterna.

Ciência, que acabou sendo criada por seus avós (Linguagem e Religião) cresceu, e se tornou um forte e amargurado guerreiro. Quando completou dezoito anos fugiu da casa dos seus avôs vestindo uma armadura incrível que chamou de tecnologia e jurou conquistar todo o mundo e submetê-lo a sua vontade.

Em sua jornada Ciência encouraçada pela poderosa Tecnologia se encontrou com sua mãe Filosofia, mas infelizmente não conseguiram se reconhecer. Porém, Política que vagava amargurada pelo mundo, astuto que era, logo reconheceu sua filha Ciência por trás da poderosa armadura e ainda amargurado pela traição de sua esposa, propôs um pacto: Política ajudaria tecnologia a derrotar seus avôs na luta para dominar o mundo caso o filho o ajuda-se em seus planos de humilhar Filosofia.

A revolução iniciada por Ciência colocou fogo e fumaça nos céus, sacudiu a terra e fez o mar e os homens urrarem de loucura, prazer e dor. A guerra do Deus Conquistador foi levada a toda parte na velocidade de um raio. Essa guerra fulminante culminou com a submissão de Linguagem, o velho e de Religião, a deusa-mãe.

Filosofia percebeu tarde demais os planos de seu amor e não teve forças para socorrer Religião, sua mãe, sendo igualmente derrotada e trancafiada pra sempre em uma torre alta e fria chamada Academia.

Ciência proclamou-se imperador e fez do astuto Política seu primeiro ministro e conselheiro pessoal. Linguagem caduco e inadequado devido a idade se retirou e virou um profeta ermitão. Religião, sua esposa, sozinha e ridicularizada passou a mendigar sua própria existência.

Enquanto isso Filosofia, trancafiada em sua torre sagrada aguarda sem esperanças durante muitos e muitos séculos o retorno de seu amor.

por Leonardo Ribeiro





Homem de Barro

19 01 2011

Por cima da cerca
do muro e da perda
das antenas, das penas
das ondas de rádio
voa pelos ares
um pensamento otário

Por baixo da rua
do suor e das lágrimas
da esperança e concreto
da fumaça dos carros
pulsa sangrando
um coração de barro

 

por Leonardo Ribeiro

 








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