Sobre muros e espelhos

17 04 2016

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Mario Jorge estava limpando sua escrivaninha, quando por descuido sua xícara verde e amarela souvenir ilustre da copa de 94 veio ao chão.

Tinha esquecido ela ali ainda suja de Nescau feito as pressas. Ela ficou ali tanto tempo que ficou invisível. Mesmo sendo depositária de tantas lembranças maravilhosas, lentamente veio vindo o cruel véu da invisibilidade que levou-a ao chão.

Olhando com tristeza sua velha e útil caneca começou a colar os cacos como se fossem santos, tentando reconstruí-la para uma provável eternidade de inutilidades.
No curso dessa atividade foi flagrado por sua mulher Tereza que chegou de repente. Estranhou seu próprio susto e seu impulso em disfarçar suas intenções restauradoras. Tomou um tranco na alma e quase joga a cola pela janela. Mas, constrangido, segurou-se a tempo.
Fez-se um silêncio ansioso. E em um milésimo de segundo disparou em sua mente uma operação de busca e apreensão de qualquer assunto não comprometedor:

– Viu só amor? A polícia levou o Lula.

– O quê?

Na mesma hora ele percebeu que sua operação mental havia falhado miseravelmente.

Tereza caminhou lentamente como um felino circundando a presa, pegou sua caneca de um vermelho desbotado pelo uso no escorredor de pratos e foi preparar um café. No caminho aproveitou para ligar a TV.

– Coloca na globo, amor. Depois da novela já vai começar o jogo.

– Mario Jorge, nessa casa não vai ter jogo e não vai ter golpe – respondeu Tereza cortando na própria pele seu desejo novelístico.

Mario Jorge finge que não escuta e se debruça sobre a colagem da caneca.

Tereza coloca em um canal de notícias, mas ao invés de prestar atenção na reportagem direciona todo o foco na atividade do marido durante alguns longos minutos de silêncio.

Mário Jorge se sentiu acuado, e se preparou para o próximo round.

– A quantidade de cola que você está usando já valeria uma caneca nova – disse provocadora.

Mario Jorge cordial concorda e responde que não havia pensado nisso quando iniciou o trabalho, mas que agora já era tarde e que faria por bem terminar a colagem.

A cordialidade quase sempre é um terrível ponto final que entrega-nos sem saber a uma saída rápida e mesquinha que recusa com tons de desânimo o diálogo.

Sem saída,  Tereza rendeu-se ao confronto. Com ares de armistício foi montando seu cavalo de Troia.

Correu até o armário da cozinha:

– Acho que ainda tem uma caneca parecida com a minha aqui em algum lugar que sobrou do conjunto que comprei. Você quer?

– Tudo bem, não se incomode – respondeu Mário Jorge negando-a mais uma vez – minha caneca jamais será vermelha.

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O Tabagista do Leme

19 02 2016

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Júlia se apressou pois havia marcado um almoço com seu namorado. Não um jantar a luz de velas como o é para os que tem fome de amor, mas um almoço a luz do dia para os que tem fome de vida. Haviam ares de reconciliação após separação de três semanas e os motivos da briga se dissipavam como nuvens ao vento.

Quando chegou no local combinado e ao se sentar certificou-se a respeito de guardanapos, uma mania antiga que revelava somente aos muito atentos sua tendência a se precaver. Estranho, entretanto, sua falta de precaução em outros momentos, por exemplo, passou-lhe  despercebido que mais uma vez ele estava atrasado e que sua pressa tinha sido inútil.

Quando Fábio chegou ela não se surpreendeu, mas fingiu surpresa. Os típicos vinte minutos de atraso são o prazo justo entre uma humilhação de meia hora e o tolerável quinze minutos. Vinte minutos era o justo atraso, o atraso o qual condenava a vítima apenas a uma paranóia muda.

– Oi, esse trânsito do Rio de Janeiro está cada vez pior.

Julia não deu a mínima mas fingiu surpresa e desapontamento.

– Preciso falar algumas coisas.

Julia silenciosa como um gato persa assistia de camarote sua própria vida e se deleitava.

– Olha, não me atraso por mal – continuou Fábio –  acontece que as vezes quando combinamos de sair eu levo alguns minutos a mais no caminho pois tenho a ideia de comprar-lhe  flores. Penso que um buquê de flores talvez você ache brega e na minha cabeça três flores é a medida correta entre a “breguice” e a mediocridade e por isso compro apenas três rosas. Entretanto, no caminho após a floricultura levo quase cinco minutos para jogar duas rosas fora, uma após a outra, em nome da discrição. Acabo por concluir que uma rosa não vai chamar atenções constrangedoras e seria a medida certa para que você desfrute do seu presente com reservas. O caminho pela rua com uma rosa na mão é cheio de dúvidas e termino por joga-la fora derrotado pela inadequação e pelo tédio. Quase sempre, inebriado pela imagem de uma rosa na lata do lixo, fumo um cigarro e penso na vida e…

– Onde está minha rosa – interrompe Júlia, sóbria.

– No lixo – responde seco.

Júlia  pega um cigarro, levanta-se da mesa, porém é segurada pela mão esquerda com uma brutalidade inesperada.

– Calma ai, o que vamos pedir pra comer?

– Vai tomar no cú!

Ele ri e tira uma rosa debaixo da mesa e diz:

– Te amo. Cansei de perder tempo.

Ela diz repentinamente bem humorada (e sinceramente surpresa):

– Seu escroto. Já são quatro anos de namoro, depois desses anos todos é só isso? O que mais você aprendeu nesse tempo em  que está junto comigo além de finalmente conseguir dar uma rosa pra uma mulher?

– O tabagismo.

– Escroto.

Por Leonardo Ribeiro
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O Último Trem

15 07 2015

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Crônica inspirada na música “trem das sete” do Raul Seixas. Foto de Diário do Rio.
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Em 2043 quando finalmente fracassou o discurso ecológico podia-se ver estampado no céu fumegante a derrota da saga humana. Nele se via algo indescritível como explosões de mil megatons pálidos e sem aurora.

– Rápido! Corra! Não vê? – alguém gritou.

Porém,  Leon parou na estação e continuou esperando impacientemente como de costume. Riscou as horas por puro hábito, mesmo já sabendo que ter pressa não faria mais sentido.

Ainda teve tempo de tentar se lembrar quando foi a última vez que viu um céu azul de verdade. Não conseguiu.

Em outro lugar, enquanto o Cristo lá do alto do morro despencava arrebatado pelo cataclisma pestilento, a onda perfeita finalmente se elevou num colosso sobre o arpoador deserto.

Algumas horas depois, longe da praia, o moribundo e ardente trem de Japeri, pela última vez, chegava na Central sem freio vertendo cólera sobre o concreto. E com apenas 13 minutos de atraso, trazia o rugível monte de cinzas do velho Leon.

Por Leonardo Ribeiro
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Protomutantes II

15 10 2014

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Video

Era em junho de 1989, muitos tanques de guerra ocupavam a Praça da Paz Celestial a dois dias. Esses militares são assim mesmo: caminham pra lá, caminham pra cá, enviam mensagens cifradas, dão ordens absurdas, ou seja, enchem o saco de todo mundo como se fosse por uma causa nobre, mas no fundo a preocupação maior é com o brilho das suas próprias botas bem lustradas.

É preciso ficar bem longe deles, mas a quem não consiga. Por isso houve muita morte naqueles dias. Estudantes, meninos e meninas. Apenas crianças, disseram os curiosos com jornais nas mãos.

Muito se especulou sobre o jovem que entrou pra história como “o rebelde desconhecido” e que foi eleito pela revista Time como uma das pessoas mais influentes do século XX após ser fotografado por Jeff Widener da Associated Press bloqueando o caminho de uma fileira de tanques. Porém, prefiro pensar que nem era estudante e que tinha apenas levantado cedo pra comprar pão e ração pro seu vira-lata que poderia se chamar “Kipon”.

Para mim bem que a história poderia terminar assim: após bloquear a fileira de tanques, o rebelde desconhecido nunca mais foi visto e Kipon passou fome durante três dias até a vizinhança perceber e passar comida por debaixo do portão. Todos lamentaram o destino do jovem e lamentaram mais ainda a certeza de que nunca de fato teriam notícias sobre o terrível destino dele ou nem ao menos a sensação de descanso de velar seu corpo.Entretanto, uma semana depois, os vizinhos decidiram arrombar sua casa para cuidar melhor de Kipon, seria uma última homenagem ao herói. Porém, grande foi a surpresa quando perceberam que o cachorro não estava mais lá e cresceu a esperança de que aquele rebelde poupado por misericórdia ou astúcia de um destino terrível tivesse voltado sozinho na calada da noite para o seu maior ato de bravura: levar consigo um fiel companheiro. E os dois tão pequenos e felizes talvez tivessem voado dali como passarinhos.

por Leonardo Ribeiro

veja também: Protomuntantes I





Saracuruna

31 08 2014

saracuruna2Fonte da foto: desconhecida

Otto pensativo entregou a mala a Margarida que se foi calada pra sempre. Um detalhe relevante da cena e que poucos perceberam é que quando ela se despediu ele respondeu com um estranhíssimo “bom dia”. Até parece que assim ficou claro para ambos, depois de tantos anos de confusão, que aquela despedida era como o despertar de um sonho surreal.

E o trem pra Saracuruna se foi logo depois de Otto ainda vislumbrar uma última lacuna aberta:

– Onde estão meus filhos que nunca terei com ela – pensou perplexo com aquela sensação de susto que se tem durante o breve momento no qual suspeita-se ter perdido a carteira ou as chaves.

por Leonardo Ribeiro

 





Poesia de Final de Turno

12 08 2014

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O café esfriou,
o feijão queimou,
o pão passou,
a poesia secou.

A letra vulgar,
o poeta qualquer,
a miragem café,
o som queimou,

A batida solou,
a bola 7×1,
o míssel mil pra um,
a escola pelos ares.

O tratado tratou,
um tratante trator,
nas crianças palestinas
de Israel.

A água vulgar,
a seca qualquer,
São Paulo secou,
São Pedro qual é?

Um nome em vão,
um bonde que passou,
uma Santa Tereza que também,
Nas eleições que elegerão.

Mas o canalha sou eu,
um comuna que pariu,
sacanagem… puta… falta…
e o sol…

E o sol… nasceu.

por Leonardo Ribeiro





Protomutantes

24 05 2014

 

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fonte da imagem desconhecida

Tudo que a gaivota sabe no seu mergulho suicida é fome. Quantas fracassaram?

 

 

por Leonardo Ribeiro