Um e noventa e nove

13 08 2009

1,99

8° lugar no I Concurso de Crônicas Cariocas da Universade Castelo Branco ( 2009)

Terminei de passar as compras e disse de forma automática:

– Um e noventa e nove.

A senhora me deu cinquenta e eu perguntei se ela não tinha uma nota menor:

– Essa loja é muito grande, não é possível que não tenha troco! – respondeu.

Certamente esse é o tipo de cliente que faria questão de um centavo de troco, mas como na realidade moedas de um centavo não existem, somos obrigados a dar moedas de cinco quando o cliente exige.

O problema é que os ficais de loja têm pouca tolerância caso o dinheiro em caixa não corresponda com o relatório gerencial de mercadorias vendidas. Mas geralmente não há muitos problemas porque nós damos cinco centavos para um ou outro cliente chato, e pedimos gentilmente para ficar “devendo” um centavo aqui e ali. A grande maioria dos fregueses costuma ser generosa.

Por isso nós, operadores de caixa, somos um pouco diplomatas. Temos que lidar com a tensão de estar entre o cliente e o patrão.
Com o tempo é possível identificar quem se deve ou não “dever” um centavo.

Até quarenta anos de idade é quase uma ofensa, os clientes sorriem e respondem em tom jocoso:

– Mas é claro!

Existem exceções.

Mulheres feias exigem um centavo a partir dos trinta e cinco anos, mas nunca espere a compreensão de uma mulher de mais de trinta que além de feia seja gorda.

Abuse dos adolescentes e das crianças, fonte inesgotável de dinheiro trocado economizado do lanche da escola.

Se for um casal, fique esperto. Provavelmente quem vai pagar será o homem e ele não vai querer parecer pão duro: dê a notinha, feche o caixa e abra um sorriso. Mas se quem for pagar for a mulher, sinal vermelho.

Caso o homem pague e a mulher seja feia, sinal amarelo. Arrisque somente se for muito necessário.

Mas a regra geral é: reforce bem as sacolas, seja simpático e dê moedas de cinco somente para trocos maiores ou iguais a três centavos. A prática ensina que assim suas contas ficarão equilibradas.

Mas em certas ocasiões é melhor deixar a simpatia de lado.

Quem não é do ramo talvez não saiba, mas em épocas comemorativas é comum existir concursos de produtividade que visam atrair o funcionário para a insana caça ao lucro, premiando com vale-compras os três caixas mais rápidos.

Quando isso acontece o mal foi feito, não importa se é páscoa ou natal, a lei é a do Demônio.

Eles sabem que como bons escravos contemporâneos, estamos sempre sofrendo da maldita fome de consumo e por tanto, vale tudo para conseguir o vale-compra.

Sendo assim, ganhe tempo não reforçando as sacolas, não separando os produtos de limpeza da comida e respondendo a perguntas sobre juros, promoções e parcelamento apenas com um rápido sim ou não.

Na última páscoa me ensinaram como travar o maldito relógio interno que monitora a velocidade de atendimento enquanto, por exemplo, um cliente distraído pede pra esperar enquanto vai pegar alguma mercadoria esquecida.

Eu não entendi direito, mas acho que é preciso apenas apertar o botão de cartão de crédito, depois apertar no botão de volta, cancela duas vezes, subtotal… sei lá!

Tarde demais.Já era o penúltimo na lista de produtividade.

Existem outras dicas igualmente úteis.

Por exemplo, caso veja algum cliente com dois carrinhos lotados de compras e com cara de fim de festa, não hesite em abaixar rapidamente e fingir que está amarrando o tênis, provavelmente algum colega distraído vai gritar inocentemente:

– Próximo!

E seu dia estará salvo.

Mas não se intimide, um grande operador de caixa é feito de grandes compras. Um dia vendi de uma só vez quinhentos reais em ovos de páscoa em um espaço de mais ou menos um metro quadrado.

Com orgulho comunico que não quebrei um ovo sequer, e a cliente, provavelmente uma doente mental por ter gasto tanto dinheiro com chocolate, saiu ostensivamente satisfeita enquanto eu me sentia uma máquina de produtividade.

Mas não se iluda, clientes são animais ainda piores que os patrões e devem ser domesticados.

Caso não cooperem ou questionem o seu profissionalismo, se vingue de forma rápida e limpa não retirando o alarme de uma das roupas.

Mas voltando ao caso da senhora, apesar de todos os alertas, eu estava distraído e acabei fechando o caixa com apenas quarenta e oito reais na mão.

Entreguei o dinheiro:

– Ta faltando um centavo – ela disse.

– Tem certeza que a senhora faz questão? Como eu fechei o caixa terei que chamar o fiscal para abrir.

– Pode chamar, eu espero.

Formulei algumas hipóteses sobre esse tipo de atitude: ideologia, falta de compaixão ou razinzice mesmo. Mal sabia eu que estava de frente para uma psicopata.

– O fiscal deu uma saída, talvez demore um pouco – disse tentando fazê-la desistir.

– Não tem problema eu espero.

– Então a senhora chega um pouco pro lado que eu chamo outro cliente, assim quando eu concluir a compra poderei abrir…

– Não, senhor! Eu quero o meu dinheiro! Você não vai passar a minha vez!
A fila aumentava.

Olhei para os lados à procura de algum colega que me socorresse, mas por ser um horário de pouco movimento só havia eu e mais outro caixa aberto. Um em cada extremidade.

Calculei mentalmente quantos passos seriam necessários para me deslocar até ele, olhei para a cara da cliente, lembrei do meu salário e conclui que não valia a pena.

Ela que espere, a fila que se dane, seria a minha pequena vingança contra o Sistema.

– Aqui as pessoas sempre pedem um centavo, né?

A pergunta me pegou de surpresa, mas consegui ser sincero:

– Não, senhora.

– Ah é? Então deixa pra lá, não vou querer não.

Chamo outro freguês mas a senhora fica por perto com um sorrisinho diabólico.

Finalmente, quando abro o caixa para dar o troco da outra cliente ela revela o seu plano:

– Abriu! Abriu! Dá-me o troco.

Dei uma moeda de cinco centavos e ela foi embora com uma expressão de vitória.

Por Leonardo Ribeiro

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3 responses

13 08 2009
Rach

Além de amigo, um ótimo escritor.

E tenho dito!

14 08 2009
Ana E.

oba, muito bom esse texto! morri de rir aqui, rs… espero novos, viu? bitocas….

24 03 2010
R Marques

Muito bom ! Será divulgado entre os meus amigos. Essa de 1,99 tirou sorrisos entre os funcionários internos. rs Um dia eu te conto… um grande abraço, Primo !

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