Nove horas e nove minutos

3 09 2009

rio vermelho

O sol, no horizonte, descia rápido como um punhal rasgando um céu quase vermelho.

Era sexta-feira, e, como em toda cidade grande, chega certo horário do fim da tarde que as pessoas vão para as ruas e para os bares. Mas naquele dia estranho todos tinham um ar de pressa e uma cara de fugitivo.

Os carros aceleravam e buzinavam no trânsito do lado de fora da LAN house onde eu trabalhava e as pessoas no interior da loja teclavam rápido para irem embora o quanto antes.

Cronometrei agonizantes 47 minutos do auge da pressa urgente das pessoas até o silêncio total.

Eram dezenove horas e cinqüenta e um minutos quando o silêncio anormal da cidade me causou um calafrio.

Não havia mais nenhum cliente no interior da loja e eu era o encarregado de fechá-la.

Com um frio na espinha caminhei até a porta e contemplei a cidade: um saco plástico voava baixo na fria avenida, o semáforo na esquina próxima ainda sinalizava compulsivamente verde e vermelho como se nada tivesse acontecido e os poucos postes de luz que ainda funcionavam pareciam muito mais fracos do que de costume.

Nenhuma viva alma nas calçadas, nenhum carro passava nas ruas. Situação bastante incomum para uma sexta-feira no centro antigo da cidade.

Antes de fechar a loja e sair sozinho na escuridão crescente daquelas ruas vazias pensei em ligar pra alguém, foi um pensamento que me ocorreu. A princípio achei graça dele, mas aos poucos foi se tornando sério.Peguei o telefone da loja, mas lembrei que não sabia nenhum número decor que não fosse o meu próprio.

Manejei a agenda do celular como uma brincadeira de roleta russa… Familiares, namorada, amigos, vizinhos… Diverti-me teorizando que nenhuma dessas relações suportaria uma ligação logicamente infundada, mas novamente o pensamento brincalhão foi se tornando coisa séria. Hesitei olhando para o celular como se fosse uma arma carregada.

Em meio a um impulso acabei ligando para o meu chefe, dono do estabelecimento, quando seu nome apareceu na tela.

– Boa noite Senhor Avelino – ainda não tinha planejado o que iria dizer.
– Quem é?
– Aqui é da LAN House, sou o …
– A ta. Pode falar. Algum problema?
– Gostaria de informar que estou fechando a loja.
– E qual o problema?
– Nenhum senhor. Só estou comunicando que a loja estará fechada em no máximo 15 minutos… talvez 20 porque estou pensando em ir no banheiro antes de ir embora…
– Você me ligou só por causa disso?
– Sim, senhor.
– Tem certeza?
– Absoluta.
– Escuta aqui. Levando em conta os últimos dois anos, quem fechou essa loja todos os dias?
– Eu, senhor.
– Quantas vezes você me ligou pra informar esse procedimento?
– Nenhuma vez.
– E você quer que eu acredite que você me ligou por causa disso?
– Sim, mas entendo que isso não faça muito sentido.
– Isso não faz o menor sentido, pra ser sincero já faz tempo que desejo colocar um novo atendente que saiba, pelo menos, falar inglês para atender os turistas. Feche a loja e me entregue a chave amanhã as 8h.

Escutei o Sr. Avelino desligar o telefone e permaneci imóvel processando o que havia acontecido.

Apesar de extremamente necessário, era um porcaria de emprego afinal de contas. Certamente na manhã seguinte conseguiria salvá-lo, mas se também não conseguisse não seria o fim do mundo.

Olhei a rua deserta agora totalmente tomada pela noite, alguns cachorros latiam e uivavam bem longe dali com se rogassem pragas ao mundo.
Olhei a agenda do celular mais uma vez. A agonia no meu peito que sentira antes tinha dobrado de tamanho. Sem buscar muitas justificativas, continuei a brincadeira de roleta russa e liguei para outra pessoa, caiu em um dos meus vizinhos, disquei sem pensar muito no que diria.

– Boa noite Seu Geraldo.
– Quem fala?
– Aqui é o seu vizinho o…
– O que deseja?
– Nada, como vai sua esposa?
– O que quer com ela?
– Queria saber como ela está…
– Ouça bem. Fique longe da minha mulher!
– O quê?
– Quer saber. Cansei-me de você. Você tem um mês para pagar o aluguel atrasado e entregar o meu apartamento.
– Calma…
– E afaste-se da minha mulher – esbravejou desligando o telefone!

Aquela era realmente uma noite bem estranha.

– Não é possível –pensei – que espécie de maldição é essa?
Jamais tive interesse na mulher do meu vizinho, apesar de ter ficado encabulado algumas vezes com seu excesso de cortesia.

Decidi continuar com o experimento e liguei pra um velho amigo.

– Alô! Como está meu camarada!
– Alô, quem fala?
– Aqui é o cara pra quem deves duas ou três cervejas! Conte as novidades!
– Opa! Como vão as coisas?
– Cara, você não vai acreditar nos últimos 30 minutos eu perdi o emprego e o apartamento.
– Nossa! Mas cara… infelizmente eu não tenho dinheiro.
– Hã? Não… relaxa, eu dou um jeito. Eu queria…
– Também não posso deixar você morar aqui porque a Roberta se mudou pra cá, e você sabe que ela não gosta muito de você.
– Vocês voltaram! Mas que bom! Como…
– Nós vamos nos casar… e eu não quero que você me ligue mais. Não leve pro lado pessoal, ela sempre te achou uma má influência. Boa sorte ai com o seu apartamento. Adeus.

Jamais soube de onde vinha a implicância daquela mulher, existem pessoas que não se dão bem desde o início, mas havia algo de anormal no olhar daquela mulher que ia além do seu estrabismo.

Decidi continuar até o fim. O próximo número veio quase automaticamente como que fazendo parte de uma seqüência pré-estabelecida em meu inconsciente. Liguei pra minha namorada.

– Alô querida, aqui é o…
– Oi amor. Tudo bem?
– Não, ta tudo péssimo. Ta tudo dando errado.
– O que houve?
– Você não vai acreditar! Eu fiz três ligações despretensiosas que colocaram a minha vida em rota de colisão com um muro invisível que está cada vez mais próximo. Meu chefe quer me demitir, meu senhorio quer meu AP de volta e o meu melhor amigo me trocou pela Roberta.
– Roberta?
– É a Roberta aquela magrela zarolha
– Eles voltaram?
– Sim e vão se casar.
(Silêncio)
– Meu amor o que houve?
– Eu… eu… preciso desligar…
– O que houve pelo amor Deus! Por que está chorando?
– A Roberta…
– O que tem essa porra?
– Eu tive um caso com ela.
– Que porra é essa? Quando?
– Na verdade achei que ainda estava tendo… eu não sabia que ela tinha voltado com o ex…
– Sua vaca!

Desliguei.

Essa foi a ligação mais vertiginosamente rápida que havia feito em toda a minha vida.

Estava em queda livre e o pára-quedas teimava em não abrir.

Liguei rápido para o próximo número, os créditos que gastava pareciam consumir também o oxigênio a minha volta.

– Alô mãe.
– Oi querido, quanto tempo! Quais as novidades? Conte-me como está sua vida na capital?
– No começo deu tudo certo, mas agora está tudo dando errado.
– Desde quando? Da última vez que nos falamos você estava empregado e tinha recomeçado a faculdade.
– Que horas são?
– São dez horas da noite.
– Faz duas horas e quinze minutos que tudo começou a dar errado.
– Que brincadeira é essa?
– Eu perdi o meu emprego, e levando em conta que meu aluguel já estava atrasado, não vou conseguir pagar a mensalidade da faculdade e…
– Eu não te disse que não devia ter saído de casa! Bem que eu avisei! Bem que eu avisei! Você deixou seu pai e eu sozinhos para perder seu tempo com farras na cidade grande! O que fiz pra merecer isso! Agora que já gastou todo o nosso dinheiro quer mais?
– Eu não quero nada! Deixa-me falar com meu pai!
Minha mãe chorando passou o telefone para o marido.
– O que você disse pra ela? Porque faz sua mãe chorar? O que fizemos de mal pra você?
– Vocês são loucos!
– Olha como fala rapaz! O que está acontecendo com você?
– Quer saber! Vá para o inferno!

Desliguei e saí calmamente pela noite deixando a loja escancarada. Assim que pisei na rua um dos postes que piscava valente tentando resistir à própria morte, desligou de vez. O sinal na esquina próxima continuava sinalizado vermelho e verde pausadamente e compulsivamente para carros que só existiam em seu delírio solitário. O Saco plástico já havia abandonado o vento e dormia preso em uma grade.

Eram cinco horas do que prometia ser uma bela manhã de sábado quando avistei o mar daquele belo balneário que havia escolhido para morar.

Cheguei a tempo de testemunhar o sol ressurgindo no oriente. Disse:

– Bom dia, meu nome é Pedro Bueno da Costa.
Mas o sol ocupado em cortar como um punhal um céu quase vermelho jamais respondeu a minha saudação.

Por Leonardo Ribeiro

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