Eminente Professor Emérito

24 12 2009

Pipoqueiro

Eis que o desemprego chegou forte no final do ano e por ter fracassado em conseguir outra ocupação devido ao seu currículo básico de trabalhador primário João Bocaiúva decide dar asas a imaginação e redigir um novo, só que dessa vez com todas as certificações em moda.Colocou Inglês, Espanhol e informática e sentiu especial orgulho da sessão de títulos. Redigiu o seguinte: João Boicaiúva, formado no instituto informático de Massachussets, especialista em pós-graduação de PHD em Harvard e Professor emérito na PUC, UFRJ e USP.

O milagre foi que acabaram engolindo o engodo e o convocaram, em uma manhã chuvosa de terça-feira. E para a entrevista, o eminente Professor emérito chegou vestido com o terno que seu pai usou quando se casou e adentrou na empresa rumo à recepcionista que, além da fama de ser franca demais, era cheia de morosidades na execução de seu trabalho. Porém, João, bem intencionado e malandro que era, tratou por vossa senhoria a menina de 19 anos e foi rapidamente ganhando terreno até a sala do Chefe.

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Gertro Cotes, o chefe , se formou na borracharia de seu pai. Tudo estava bem na sua vida quando aos 25 anos um incêndio tomou-lhe tudo ( tanto o pai quanto a borracharia) obrigando-o a procurar guarida no mercado de trabalho.Inteligente, conseguiu se estabelecer em uma empresa de transporte de carga ocupando na época o posto de Gerente do setor de Compra, Reparo e Manutenção da frota. Mas então veio a crise e no final do ano, com a fusão de sua empresa com a número um do setor, chegou da alta chefia certa demanda a respeito de indicadores, relatórios e toda sorte de papelada. Resumindo a novela, Gertro Cotes teria que justificar o emprego de seus subordinados sob o risco de ter que demitir aqueles cuja justificativa viesse a fracassar. A primeira solução que lhe veio à cabeça foi passar essa responsabilidade pra outro.

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Com a mão no queixo, Gertro não disse nada durante um bom tempo, pois olhava receoso o sensacional currículo de João. Ele estava acostumado a contratar motoristas, maquinistas e maquineiros , porém as circunstâncias o colocaram em uma situação excepcionalmente delicada, mas logo se acalmou pensando que para ele não fazia a mínima diferença se esse homem era um senhor emérito nas Universidades Federais ou um completo idiota desde que assuma responsabilidade e culpa sobre o problema das demissões.Pensou ainda que pela qualidade do terno que vestia, acadêmico ou não, estava diante de um ser humano que realmente precisava do emprego. Bem intencionado e malandro que era tratou João, o lanterneiro desempregado aos 40 anos, por “Doutor” e o aceitou com ares de grande alegria sem fazer nenhuma pergunta pois no fundo também tinha  medo de demonstrar ignorância.

O embuste durou pouco mais de um mês, porém o que importa é que com o dinheiro do primeiro ordenado João comprou tender, peru e panetone e seus filhos tiveram um natal milagroso contrariando as previsões do jornal das sete horas sobre o destino do proletariado do setor automotivo.E durante uma semana as crianças só passavam em casa para dormir e comer, e dormiam o sono merecido de quem se ocupou o dia inteiro da missão sagrada de aprender a guiar suas bicicletas novas.

Com o que sobrou do primeiro e único salário João deu entrada em um carrinho de pipoca que batizou de “Professor Emérito” e o negócio prosperou em frente ao campus da UFRJ ali em botafogo. Alguns anos depois comprou outro carrinho que colocou na Gávea próxima a PUC sob a responsabilidade de seu primogênito.Seu sonho era mandar outro carrinho com o segundo filho para a USP, trabalhou duro pra isso. E nas tardes de sábado se gabava nos bares do Méier:

– Tenho um filho na PUC e estou juntando dinheiro pra mandar o mais novo pra USP.

E sua história ficou conhecida tanto no “Bar do Nalber” quanto entre seus clientes universitários. E quando perguntavam:

– João, como vai mandar o filho pra São Paulo vender pipocas?

E João respondia com um sotaque pernambucano que vez ou outra revelava que sua carioquisse não era de nascença e sim por adoção:

– Vamos ver se não vou.

Mas por sorte o dinheiro reservado para o terceiro carrinho nunca se mostrou suficiente, sempre vinha um aniversário, casamento, enterro ou neto que reconfigurava momentaneamente as prioridades financeiras de João. E por fim a vida se mostrou curta como ela sempre é, e João morreu feliz sem concretizar seu sonho tolo.

Por Leonardo Ribeiro

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