A Roda da Fortuna – Uma história de terror

30 10 2010

Quem se lembra de uma corrente de e-mail que circulava na internet a uns 2 ou 3 anos atrás que consistia em uma lista de números de contas bancárias e um texto sobre um jogo onde todos saem ganhando? No e-mail explicava-se que o destinatário deveria depositar uma certa quantia em todas contas ( Por exemplo, dez reais), apagar o último número da lista e colocar o número de sua conta no topo da lista. A lógica era que com o movimento da corrente de e-mails todos receberiam uma quantia muito superior a depositada. Com a adesão de cada vez mais pessoas a corrente, todos sairiam ganhando, era questão de tempo.

Essa é a versão virtual de um jogo ilegal chamado popularmente de “Roda da Fortuna” ou “Pirâmide”. Esse jogo é ilegal porque parte do princípio que existe uma fonte de recursos infinita quando na realidade sabemos que isso não é verdade. Na prática os recursos da rede de contatos chegam ao fim antes da maioria conseguir um retorno de seus investimentos fazendo com que somente quem está no topo da pirâmide ganhe muito dinheiro e a maioria perca. A lógica por traz da pirâmide é altamente agressiva, se uma pirâmide começa com apenas 3 e considerarmos que das pessoas encaminhadas apenas 3 participem da pirâmide em cada nível ( 3x3x3x3 etc..), em apenas 12 sequências já teríamos mais de 1 milhão de pessoas somente na base da pirâmide. Trantando-se da internet, números astronômicos de pessoas enganadas poderiam se dar em apenas alguns dias, por isso a polícia federal agiu fortemente coibindo esse tipo de prática evidentemente criminosa.

As premissas por traz da Pirâmide são:
1) Existem recursos infinitos
2) É justo e ético ganhar dinheiro sem produzir nada (bens ou serviços)
3) A culpa pelos prejuízos que a base da pirâmide arca é da própria base da pirâmide que não soube manter a pirâmide funcionando como o topo fez.

Porém, meus nobres amigos internautas, essas premissas são, categoricamente, as mesmas por traz da lógica do neoliberal, hegemônica no mundo de hoje.

A “base da pirâmide” de nossa sociedade investe com seu trabalho muitas vezes por conta de uma esperança de retornos impossíveis de serem alcançadas e o “topo da pirâmide”, composto pelas grandes instituições financeiras globais (bancos, seguradoras, fundos de investimento), matem a ordem administrando a culpa pelos prejuízos inerentes ao sistema e justificando os seus altos ganhos. É isso que vemos a cada crise do capitalismo. A história mostra que essas crises estão cada vez mais frequêntes.

Acontece que da mesma forma que no jogo, a base da pirâmide se expande em progressão geométrica formando bolsões de prejuízo, mentira, falta de esperança e miséria que são pressionados com violência pelo topo através de suas culpabilizações e pretextos. A única forma de reverter esse quadro é através do direito social.

Atualmente, o direito social (como por exemplo: o direito a férias, o direito a décimo terceiro, a licença maternidade, saúde, educação, cultura, salário mínimo, etc.) serve para conter essa violência do topo em relação à base. Porém, é preciso que esse direito social seja ampliado de forma que se possa reverter esse esquema para que os rendimentos sejam melhores distribuídos promovendo o que se chamaria de justiça social.

É importante esclarecer que a base da pirâmide não é constituída pelas pessoas que estão na miséria extrema como analfabetos desempregados que sobrevivem em favelas seja na baixada fluminense, nos bolsões de miséria da áfrica ou no Haiti. Essas pessoas nem sequer entraram na pirâmide, elas estão por baixo dela e foram friamente esmagadas. Elas foram excluídas do sistema e hoje vivem sob a sombra de expressões como “inempregáveis” formulada por FHC, ou seja, pessoas que não merecem investimento, pois o retorno financeiro desse investimento seria improvável. Essas pessoas, pela lógica liberal, não teriam competência mínima pra manter a pirâmide funcionando.

A base da pirâmide, na verdade, é formada pela classe operária, a classe média, os pequenos empresários ou industriais de pequeno ou médio porte e até mesmo pelos profissionais liberais. Esses são os que estão ligados a produção de bens e prestação de serviços e que mais se beneficiam da idéia de direito social da forma como é posto em prática hoje e que teve sua expressão máxima no governo Lula ( Isso mesmo! Não sao os miseráveis que mais se beneficiam do direito social!). Na classe operária, por exemplo, o direito social entra como seguro desemprego e bolsa família, saúde gratuita (SUS), na classe média tem o direito a férias remuneradas, licença maternidade, o SAMU ( serviço 192 de emergência ambulatorial gratuito que socorre vítimas de atropelamento, por exemplo, o planos de saúde não prestam esse serviço ,então quando alguém da classe rica é atropelada o primeiro atendimento antes de ser encaminhado para um hospital particular é sempre do SAMU que é o primeiro a chegar no local), já os industriais e os pequenos empresários se beneficiam dos impostos simplificados e reduzidos, acesso a microcrédito e serviços de utilidade pública que a iniciativa privada não conseguiria dar conta como os Bombeiros, por exemplo.

Nós que temos acesso a internet e comemos Big Mac depois de assistir Tropa de Elite 2 no cinema do shopping, somos os “cavalos da charrete”, e os “inempregáveis” como chamou FHC são a grama arrasada por baixo de patas e rodas ao som do estalar celestial de cada chicotada financeira. Nós que somos os cavalos do sistema, produzimos bens e prestamos serviços que beneficiam toda a pirâmide, porém de acordo com a premissa número 2 do “jogo” não somos devidamente reconhecidos por isso ( nem financeiramente nem em termos de prestígio). Porém é muito relevante deixar claro que o caminho para o melhor reconhecimento da base, a partir do direito social, não vai levar ao fim do sistema criminoso da pirâmide, mas simplesmente a atenuação do mesmo.

Porém, mesmo que alterando pouco o funcionamento violento da pirâmide, o direito social o atenua consideravelmente. A ampliação gradual do direito social pode levar a longo prazo uma mudança radical do funcionamento da “Pirâmide” de forma que as pessoas esmagas de baixo dela possam ter uma vida digna.

Por tanto, somente através do direito social é possível constituir uma sociedade diferente, ou seja, que possa se desenvolver de forma sustentável e consciente contra a monstruosidade da premissa número1 que prega que os recursos do planeta são infinitos. Sendo assim o discurso ambiental só pode fazer sentido sobre a base sólida do direito social que questione o funcionamento da pirâmide e que reconheça de forma justa as pessoas que trabalham verdadeiramente para o benefício de todos e subtraia o poder do topo que violenta o planeta com sua ideologia insustentável que se apóia na idéia de “recursos infinitos”.

Por isso apoio a Dilma nesse segundo turno, pois se por um lado fica evidente que ela não tem pretensões (nem poder) de reverter o sistema, por outro, sua defesa histórica dos direitos sociais conduz o país em um sentido mais humano e sustentável. Pois o único caminho para a preservação do planeta é aquele que passa pela defesa da dignidade humana.

Mais informações sobre sustentabilidade e neoliberalismo , por favor, assista esse vídeo:

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3 responses

13 11 2010
Flavio Rangel

Em certos países, as autoridades encontraram uma “solução” para parte da base e a grande massa que nem sequer entra na pirâmide: criminalizá-la ao extremo. É o que Löic Wacquant chama de queda do estado-providência (welfare state) e ascensão do estado-penitência (workfare state). Nesses países, as políticas de direitos sociais são consideradas incentivo à preguiça e a incapacidade de estabelecer-se economicamente é totalmente individualizada. A probreza é criminalizada e encarcerada e, por fim, as autoridades encontram formas de lucrar com as prisões. A retirada do estado das questões sociais é onde tem chegado o neoliberalismo.
Preocupo-me quando certos políticos propõe que a solução para o crime no Brasil é o fortalecimento da polícia, sem sequer tocar em pontos como educação ou emprego. E é incrível como idéias como essas vendem! Aparentemente, quem vai ao shopping, come no McDonald’s e ainda vota nesses políticos não sente na pele o que significa ser um eterno suspeito para a polícia por compor determinados grupos sociais.

17 11 2010
Nathalia Lima

Muito bom Léo! é mt importante entendermos a normatividade que nos opera e (infelizmente) fazemos operar (principalmente enquanto psicólogos, rs)… acredito que é daí que podemos criar linhas de fuga dessa massificante realidade. Qnto a Dilma confesso que fico de dedos cruzados…

17 11 2010
Leonaro Ribeiro

Bota fé na gordinha que ela é boa! Vai Dilma! Força na peruca!

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