Um segundo para Meia-Noite

23 12 2010

Quase meia-noite e as pessoas ainda caminham para pegar o trem enquanto o mundo envolta delas parece correr acelerando a mil por hora.

Alguns segundos antes da meia noite, tudo para, como se o planeta desse um longo e profundo suspiro antes de começar de novo. Somente as pessoas que estão atentas conseguem ouvir o sussurro do mundo em forma de brisas infantis.

Antes da meia noite as pessoas continuam caminhando para pegar o trem, o mundo ainda está acelerando, porém é possível ver uma cigarra, dessas bem vadias, voando em câmera lenta e quando ela pousa em um pequeno projeto de árvore faz cair uma gota de orvalho que demora quase uma semana pra atingir o chão.

Quando é quase meia-noite existem luzes que passam rápido o suficiente para nem serem percebidas enquanto o mendigo leproso e faminto que dorme no frio da sarjeta sonha com mundos perfumados de rosas, cravos e canela quente. Nesse momento um sorriso de bebê devidamente ofuscado pela pele suja brota no canto da boca dos homens.

Quase meia noite, mas quase mesmo, o trem chega fazendo barulho e as pessoas que por ali o esperavam tão ansiosamente alguns minutos atrás parecem não perceber a sua chegada, porém percebem uma nostalgia no ar como a eletricidade que antecede uma tempestade de raios.

Existem lágrimas que inundam o olhos das pessoas que ali estão, provavelmente se culpando por terem perdido a esperança de chegar em casa antes da chuva. As pessoas olham o vazio e as lágrimas não descem, jamais.

O trem chegou fazendo um barulho infernal, mas ninguém percebeu. Existem lembraças que só surgem alguns segundos antes da meia-noite e quando elas chegam às lágrimas também chegam, mas essas não descem jamais assim como a chuva.

Essa chuva que não desce é pior que furacão anunciado, pois não permite que nada seja feito e, o que é pior, não permite que nada seja lamentado.

O mendigo acorda assustado, olha pro céu e grita para as pessoas:

– O trem é tão caro e a vida é tão rara… e a chuva! E essa maldita chuva é tão complicada!

As pessoas olham fixo para o infinito e não dão a mínima importância para o trem que se cala ofendido, e voltam a encarar o vazio sem fim como uma criança encararia um trem indo embora: com chuvas que não desceriam jamais.

por Leonardo Ribeiro

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