O Diabo de Pedra

13 01 2011

Todos aqueles que chegam em Niterói de barca são recebidos pela carrancuda estátua de pedra do Cacique Araribóia, seu primeiro governante. São poucos aqueles que percebem a figura de um homem que um tempo atrás permanecia diariamente próxima a base da estátua se destacando da multidão por conta de seu singelo microfone ligado a um velho amplificador e esbravejando insistentemente contra o diabo de pedra.

Se virando para a estátua o sujeito freqüentemente dizia:

– Vá de retro! Em nome Jesus! Aleluia!

E se virando para a multidão:

– Esse diabo de pedra foi colocado aqui para amaldiçoar todos aqueles que chegam nessa cidade, Aleluia! Em nome de Jesus, Aleluia!

E com o chapéu estendido:

– Contribuam para a continuidade da obra que o Senhor me confiou, Aleluia!

A pessoa em questão é conhecida pelo vulgo de “Maceió”, seu nome verdadeiro parece ter sido perdido pra sempre em algum lugar entre a loucura e a malandragem. Diz a lenda que a luta contra a estátua durou mais de 40 anos desde sua inauguração em 1965.

Nesse meio tempo Araribóia não se mexeu nem um milímetro e continuou, como sempre, implacável em sua posição a mercê apenas das diabruras do tempo que, na verdade, pareciam afetar mais o pastor do que o índio, pois na luta contra o tempo o diabo sempre vence.

Aos poucos percebeu que quanto mais berrava mais dinheiro ganhava para financiar a sua causa e que com um microfone poderia berrar ainda mais alto.

Com o tempo as arrecadações permitiram que ele pudesse se dedicar mais à sua estátua e logo o volume de doações ficou tão alto que o permitiu criar com folga dois filhos legítimos, um bastardo, um adotado, quatro netos, um bisneto, quatro cachorros e um periquito.

Em uma manhã de domingo de fevereiro ou março, o velho pastor flagrou um pomba fazendo suas necessidades na cabeça do Cacique. Primeiramente pesou:

– É bem feito. Toma o que merece, Judas! Aleluia!

Mas depois ficou com remorsos. Permitiu-se desviar cerca de três horas da sua missão para ir em sua casa e trazer balde e esfregão para limpar a estátua. E viu que ela ficou tão reluzente e tão menos ameaçadora que decidiu fazer o mesmo toda semana.

Porém, finalmente o diabo venceu a luta contra o tempo e Maceió envelheceu a ponto de não ter mais forças pra berrar e finalmente faleceu enquanto a estátua permanecia implacável testemunhando a eternidade.

Tem quem diga que um dos últimos desejos do pastor foi ser enterrado perto da estátua. Tendo em vista a falta de cabimento do pedido bem que pode ter sido verdade. Mas quem viveu ali duramente muito tempo jura que a estátua foi ficando mais carrancuda conforme o pastor ia morrendo, outros dizem que a expressão mais séria é resultado do acúmulo de sujeira devido ao término das limpezas semanais.

Outros tentaram ocupar o lucrativo lugar do falecido Maceió, mas nenhum conseguiu ficar ali por muito tempo. O diabo de pedra jamais aceitaria qualquer um como inimigo.

 por Leonardo Ribeiro

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