Um simples boné

2 11 2013

texaco

Foi depois de um carnaval, como geralmente é,  que Betina iniciou sua carreira espiritualista com direito a roupa branca e terreiro de umbanda aos sábados e jogo de búzios uma vez por mês. Dizem que a história começa após uma abordagem, digamos, truculenta de uma cigana na Praça XV.  Pensando agora, bem que poderia ter sido apenas uma brincadeira de carnaval, mas vai saber?

Dizem que a cigana arrastou Betina pela mão e prometeu-lhe um bom futuro por três reais ou um pouco de cerveja. Indignada com a proposta, a universitária criada no interior do Rio e a três dos seus melhores anos na cidade, mandou a picareta pro diabo que a carregue. Consternada pela reação antipática, a cigana rougou-lhe uma série de pragas ininteligíveis e foi embora atrás de outra vítima.

A cigana se foi fisicamente, mas é de conhecimento público que ficou como ave de mau agouro rondando a cabeça de Betina durante todo aquele carnaval repetindo suas palavras profanas. O que falam é que a menina deixou de ser a mesma, passou a olhar  quatro ou cinco vezes para atravessar a rua, evitava correr, nunca mais usou chinelo, encostou sua bicicleta,  não queria mais entrar no mar e desenvolveu uma desconfiança antipática das pessoas.

Foi em um bloco em Santa Tereza  que a situação se agravou, cismou com um rapaz que usava um boné marcado com uma estrela vermelha e um “T” misterioso. Todas as tentativas de persuadi-la de que se tratava de um simples boné de uma famosa marca de posto de gasolina e que o uso do mesmo deveria ser atribuída muito mais ao mal gosto do indivíduo a qualquer outro significado sobrenatural não foram suficientes.

Acontece que o rapaz de boné que tão deixou Betina  desconfiada era um daqueles cariocas que não sabem sambar. O boné era um artifício para esconder os olhos assustados de quem não sabe onde colocar as mãos a maior parte do tempo, um homem de parca iniciativa do tipo que prefere ouvir a contar uma boa piada, do tipo que não pode ser capaz nem de completar a fantasia de frentista, ficando apenas com o boné que lhe era conveniente. Porém, necessário dizer que honrou a tradição de sua cidade se aproximando da fêmea de seu interesse da forma que pôde e demonstrou que um dilema passado de geração em geração por seus antepassados e a muitos séculos sem resolução na sua família foi-lhe transmitido com relativo sucesso por seu avô precocemente viúvo que o criou. Dilema que pode ser sintetizado na seguinte frase: se não tem tempo para perder com mulher, vai ter tempo para perder com o quê?

O estranho era que o cara com o boné da Texaco aparecia sempre aqui e ali. Para o terror de Betina o boné sempre estava lá em cada bloco que ia. Por obra do acaso talvez … mas teimo em acreditar que coisas misteriosas acontecem  nessa cidade apesar da tsunami de marasmo e gentrificação. Acho que sou uma testemunha de que coisas extraordinárias ainda acontecem nessas ruas, sem discriminação e geralmente a preço de banana. Não canso de me assombrar com isso.

O clima já estava tenso e muitos já compravam as dores de Betina sem nem entender direito quais eram.  Já era quarta-feira de cinzas quando ela perdeu a cabeça e atacou o rapaz arrancado-lhe o boné com um tapa violento. Dessa feita, o chapéu se perdeu pra sempre no meio da multidão e então foi a vez dele mentir e negar-lhe qualquer interesse e cobra-la a peso de insultos o boné perdido.

Ninguém entendeu o que estava gerando tanta discussão entre os dois, mas é fato que mesmo já sendo quarta-feira de cinzas eles tiveram algumas semanas para resolverem o que quer que seja, porque faz tempo que nessa cidade o carnaval não se encerra de repente na quarta-feira para ir terminando  devagarinho até meados de abril. E em maio as pragas infernais que atormentavam Betina já haviam sido curadas e em fevereiro do ano seguinte nascia uma linda menina de olhos assustados,  mais uma mulher a vir tomar o tempo que nesse mundo é de seu direito.

Betina fez tudo que pode para proteger a criança de feitiçaria de cigana. Fez até com que o pai dirigisse até São Gonçalo a fim de levarem a menina  até um terreiro. E deram-lhe o nome de Céu, conforme recomendado.

Por Leonardo Ribeiro

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