O Observador de Pássaros

26 04 2014

banho de chuvaFoto: Rajesh Kumar Singh/AP

 

Talvez já tenha chegado aos seus ouvidos a famosa história de certo homem que observava pássaros no Alto da Boa Vista, mas mesmo assim os detalhes que contarei poucos sabem. Em verdade soube que o interesse do homem não era pelos pássaros em si, mas pelo vôo! O esforço da decolagem; o perigo da aterrissagem; a inteligência no plainar; o jogo coletivo da formação em “V” dos patos migratórios; e a leveza do beija-flor que enganado pelas flores sai por ai feliz no seu trabalho incansável, pensando que um dia será o dono do jardim, pobre beija-flor.

Dizem que em seu leito de morte esteve diante de seu filho já quase homem que perguntou-lhe desesperado como pôde ser feliz nessa vida sem ter tido tempo de voar e conhecer o mundo como as aves que observara. O homem respondeu com seu último suspiro tocando com o dedo indicador a ponta do nariz do filho.

Com um olhar e apenas uma lágrima o filho se despediu do pai pra sempre. Contou três segundos e saiu por ai quase leve como um passarinho. E no mesmo impulso, suando e tropeçando foi lá onde bem sabia e falou tudo pra ela sem perda de tempo. Explicou para ela que tinha visto com seus olhos perplexos que o tempo era ave de rapina e voava sem perdão.

De fato foi uma cena ridícula e em vão e  jovem casal se separou pra nunca mais.

Foi embora.

E no caminho baixou uma serragem que veio do Alto acompanhada de chuva forte no momento em que passava a pé entre os bairros da Muda e da Usina. Na chuva, completamente sem guarda-chuva, fechou os olhos e se encheu de vida quando abriu os braços como o Cristo no alto do Cosme Velho no seu eterno abraço de amor inconcluso.

Quase pôde sentir o frio do relento e o som do arvoredo tropical como Ele sentiria se não fosse de pedra. Mas antes que pudesse concluir em pensamento o abraço, a chuva gelada roubou-lhe um longo beijo molhado: amou-lhe de volta aquela tempestade atroz.

Quando abriu os olhos se percebeu ali, sem camisa, com os braços abertos e o cabelo molhado, recebendo os olhares sedutores das senhoras de salto e terninho e das garotas que saiam apressadas da escola, que o haviam confundido com um poeta.

Por Leonardo Ribeiro

Anúncios

Ações

Information

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: