O Tabagista do Leme

19 02 2016

tabagista

Júlia se apressou pois havia marcado um almoço com seu namorado. Não um jantar a luz de velas como o é para os que tem fome de amor, mas um almoço a luz do dia para os que tem fome de vida. Haviam ares de reconciliação após separação de três semanas e os motivos da briga se dissipavam como nuvens ao vento.

Quando chegou no local combinado e ao se sentar certificou-se a respeito de guardanapos, uma mania antiga que revelava somente aos muito atentos sua tendência a se precaver. Estranho, entretanto, sua falta de precaução em outros momentos, por exemplo, passou-lhe  despercebido que mais uma vez ele estava atrasado e que sua pressa tinha sido inútil.

Quando Fábio chegou ela não se surpreendeu, mas fingiu surpresa. Os típicos vinte minutos de atraso são o prazo justo entre uma humilhação de meia hora e o tolerável quinze minutos. Vinte minutos era o justo atraso, o atraso o qual condenava a vítima apenas a uma paranóia muda.

– Oi, esse trânsito do Rio de Janeiro está cada vez pior.

Julia não deu a mínima mas fingiu surpresa e desapontamento.

– Preciso falar algumas coisas.

Julia silenciosa como um gato persa assistia de camarote sua própria vida e se deleitava.

– Olha, não me atraso por mal – continuou Fábio –  acontece que as vezes quando combinamos de sair eu levo alguns minutos a mais no caminho pois tenho a ideia de comprar-lhe  flores. Penso que um buquê de flores talvez você ache brega e na minha cabeça três flores é a medida correta entre a “breguice” e a mediocridade e por isso compro apenas três rosas. Entretanto, no caminho após a floricultura levo quase cinco minutos para jogar duas rosas fora, uma após a outra, em nome da discrição. Acabo por concluir que uma rosa não vai chamar atenções constrangedoras e seria a medida certa para que você desfrute do seu presente com reservas. O caminho pela rua com uma rosa na mão é cheio de dúvidas e termino por joga-la fora derrotado pela inadequação e pelo tédio. Quase sempre, inebriado pela imagem de uma rosa na lata do lixo, fumo um cigarro e penso na vida e…

– Onde está minha rosa – interrompe Júlia, sóbria.

– No lixo – responde seco.

Júlia  pega um cigarro, levanta-se da mesa, porém é segurada pela mão esquerda com uma brutalidade inesperada.

– Calma ai, o que vamos pedir pra comer?

– Vai tomar no cú!

Ele ri e tira uma rosa debaixo da mesa e diz:

– Te amo. Cansei de perder tempo.

Ela diz repentinamente bem humorada (e sinceramente surpresa):

– Seu escroto. Já são quatro anos de namoro, depois desses anos todos é só isso? O que mais você aprendeu nesse tempo em  que está junto comigo além de finalmente conseguir dar uma rosa pra uma mulher?

– O tabagismo.

– Escroto.

Por Leonardo Ribeiro
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20 02 2016
Walter Feder

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