Banalidades 2

7 05 2014

banana

Visitou cidades estrangeiras que de tão organizadas pareciam shopping center, câmeras, guardas, postes limpos e aquelas lojas todas iguais. Queijos, vinhos, pãezinhos, feirinhas populares, sexo e comida com sabor que tende a extrato de tomate. No aeroporto, nas filas do freeshop e nos lugares antigos como os museus, amputados até a morte para melhor servi-lo, sentia como se pudesse ser alvo de uma banana perdida a qualquer momento.

De volta a casa, uma porcaria que tinha alugado em Praga, e ainda com uma mochila de roupa suja nas costas abriu a geladeira quase vazia e viu que ainda tinha uma comida semi-pronta e na validade com aquele sabor que tende a molho de tomate. Deveria ter desistido, mas resistiu.

Ligou para Maria Julia que supunha ainda estar no que sobrou do apartamento em Laranjeiras, mas ela nunca estaria lá e por isso deixou recado com o Prata, um vizinho.

– Por onde vai, homem ?

– Diga a Maria que fico e acabou – respondeu seco.

Por Leonardo Ribeiro

Outra crônica sugerida: Banalidades





O Observador de Pássaros

26 04 2014

banho de chuvaFoto: Rajesh Kumar Singh/AP

 

Talvez já tenha chegado aos seus ouvidos a famosa história de certo homem que observava pássaros no Alto da Boa Vista, mas mesmo assim os detalhes que contarei poucos sabem. Em verdade soube que o interesse do homem não era pelos pássaros em si, mas pelo vôo! O esforço da decolagem; o perigo da aterrissagem; a inteligência no plainar; o jogo coletivo da formação em “V” dos patos migratórios; e a leveza do beija-flor que enganado pelas flores sai por ai feliz no seu trabalho incansável, pensando que um dia será o dono do jardim, pobre beija-flor.

Dizem que em seu leito de morte esteve diante de seu filho já quase homem que perguntou-lhe desesperado como pôde ser feliz nessa vida sem ter tido tempo de voar e conhecer o mundo como as aves que observara. O homem respondeu com seu último suspiro tocando com o dedo indicador a ponta do nariz do filho.

Com um olhar e apenas uma lágrima o filho se despediu do pai pra sempre. Contou três segundos e saiu por ai quase leve como um passarinho. E no mesmo impulso, suando e tropeçando foi lá onde bem sabia e falou tudo pra ela sem perda de tempo. Explicou para ela que tinha visto com seus olhos perplexos que o tempo era ave de rapina e voava sem perdão.

De fato foi uma cena ridícula e em vão e  jovem casal se separou pra nunca mais.

Foi embora.

E no caminho baixou uma serragem que veio do Alto acompanhada de chuva forte no momento em que passava a pé entre os bairros da Muda e da Usina. Na chuva, completamente sem guarda-chuva, fechou os olhos e se encheu de vida quando abriu os braços como o Cristo no alto do Cosme Velho no seu eterno abraço de amor inconcluso.

Quase pôde sentir o frio do relento e o som do arvoredo tropical como Ele sentiria se não fosse de pedra. Mas antes que pudesse concluir em pensamento o abraço, a chuva gelada roubou-lhe um longo beijo molhado: amou-lhe de volta aquela tempestade atroz.

Quando abriu os olhos se percebeu ali, sem camisa, com os braços abertos e o cabelo molhado, recebendo os olhares sedutores das senhoras de salto e terninho e das garotas que saiam apressadas da escola, que o haviam confundido com um poeta.

Por Leonardo Ribeiro





História de Garoa

22 12 2013

chuva

Imaginem uma densidade de mais de sete mil pessoas por quilômetro quadrado fumando, amando, odiando, comendo, comprando e trabalhando, trabalhando, trabalhando.

Nesta cidade de grande densidade, disseram-me que existiu alguém que foi para as pessoas que conheceu como a garoa que passa: a princípio, caso não tenha um guarda-chuva, é preciso proteger-se, mas não muito; com o tempo se a garoa persiste por muitos dias acostuma-se com ela e quando finalmente esse incômodo cessa, mal se percebe. Mas as vezes em dias muito quentes ou quando o ar está muito sujo e abafado e se precisa de garoa pois é preciso respirar … ela cai soberba como bem sabe, pois a garoa nunca é rancorosa e mais uma vez foi capaz de renunciar a sua única chance de vingança. E alguém, vez ou outra, para de fumar, amar, odiar, comer, comprar, trabalhar, trabalhar, trabalhar e  joga fora o guarda-chuva e se esbalda de rua.

Soube também que ainda era madrugada quando os primeiros riscos de tinta a spray cortaram o muro e que vez ou outra a luz vermelha ou o barulho da sirene fazia o artista esgueirar-se para as sombras. E na manhã seguinte no Ônibus expresso lotado, abafado e quente que passou por ali alguém que olhava pela janela viu um muro diferente e respirou…

Por Leonardo Ribeiro





Um simples boné

2 11 2013

texaco

Foi depois de um carnaval, como geralmente é,  que Betina iniciou sua carreira espiritualista com direito a roupa branca e terreiro de umbanda aos sábados e jogo de búzios uma vez por mês. Dizem que a história começa após uma abordagem, digamos, truculenta de uma cigana na Praça XV.  Pensando agora, bem que poderia ter sido apenas uma brincadeira de carnaval, mas vai saber?

Dizem que a cigana arrastou Betina pela mão e prometeu-lhe um bom futuro por três reais ou um pouco de cerveja. Indignada com a proposta, a universitária criada no interior do Rio e a três dos seus melhores anos na cidade, mandou a picareta pro diabo que a carregue. Consternada pela reação antipática, a cigana rougou-lhe uma série de pragas ininteligíveis e foi embora atrás de outra vítima.

A cigana se foi fisicamente, mas é de conhecimento público que ficou como ave de mau agouro rondando a cabeça de Betina durante todo aquele carnaval repetindo suas palavras profanas. O que falam é que a menina deixou de ser a mesma, passou a olhar  quatro ou cinco vezes para atravessar a rua, evitava correr, nunca mais usou chinelo, encostou sua bicicleta,  não queria mais entrar no mar e desenvolveu uma desconfiança antipática das pessoas.

Foi em um bloco em Santa Tereza  que a situação se agravou, cismou com um rapaz que usava um boné marcado com uma estrela vermelha e um “T” misterioso. Todas as tentativas de persuadi-la de que se tratava de um simples boné de uma famosa marca de posto de gasolina e que o uso do mesmo deveria ser atribuída muito mais ao mal gosto do indivíduo a qualquer outro significado sobrenatural não foram suficientes.

Acontece que o rapaz de boné que tão deixou Betina  desconfiada era um daqueles cariocas que não sabem sambar. O boné era um artifício para esconder os olhos assustados de quem não sabe onde colocar as mãos a maior parte do tempo, um homem de parca iniciativa do tipo que prefere ouvir a contar uma boa piada, do tipo que não pode ser capaz nem de completar a fantasia de frentista, ficando apenas com o boné que lhe era conveniente. Porém, necessário dizer que honrou a tradição de sua cidade se aproximando da fêmea de seu interesse da forma que pôde e demonstrou que um dilema passado de geração em geração por seus antepassados e a muitos séculos sem resolução na sua família foi-lhe transmitido com relativo sucesso por seu avô precocemente viúvo que o criou. Dilema que pode ser sintetizado na seguinte frase: se não tem tempo para perder com mulher, vai ter tempo para perder com o quê?

O estranho era que o cara com o boné da Texaco aparecia sempre aqui e ali. Para o terror de Betina o boné sempre estava lá em cada bloco que ia. Por obra do acaso talvez … mas teimo em acreditar que coisas misteriosas acontecem  nessa cidade apesar da tsunami de marasmo e gentrificação. Acho que sou uma testemunha de que coisas extraordinárias ainda acontecem nessas ruas, sem discriminação e geralmente a preço de banana. Não canso de me assombrar com isso.

O clima já estava tenso e muitos já compravam as dores de Betina sem nem entender direito quais eram.  Já era quarta-feira de cinzas quando ela perdeu a cabeça e atacou o rapaz arrancado-lhe o boné com um tapa violento. Dessa feita, o chapéu se perdeu pra sempre no meio da multidão e então foi a vez dele mentir e negar-lhe qualquer interesse e cobra-la a peso de insultos o boné perdido.

Ninguém entendeu o que estava gerando tanta discussão entre os dois, mas é fato que mesmo já sendo quarta-feira de cinzas eles tiveram algumas semanas para resolverem o que quer que seja, porque faz tempo que nessa cidade o carnaval não se encerra de repente na quarta-feira para ir terminando  devagarinho até meados de abril. E em maio as pragas infernais que atormentavam Betina já haviam sido curadas e em fevereiro do ano seguinte nascia uma linda menina de olhos assustados,  mais uma mulher a vir tomar o tempo que nesse mundo é de seu direito.

Betina fez tudo que pode para proteger a criança de feitiçaria de cigana. Fez até com que o pai dirigisse até São Gonçalo a fim de levarem a menina  até um terreiro. E deram-lhe o nome de Céu, conforme recomendado.

Por Leonardo Ribeiro





Anjos Infernais

19 10 2013

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Era uma cena de uma manhã de sábado. O sol forte, o céu azul e limpo em uma rua bem arborizada nas imediações de Vila Isabel. O bando de moto acelerava sem cantar pneu. Não rápidos, mas implacáveis.  Crianças acenavam da garupa das motocicletas e haviam caveiras, tatuagens e todo o resto. Os caras nas motos vestiam jaquetas pretas com um escrito em inglês que avisava: “Anjos Infernais”. Porém, o cortejo apenas abria caminho para algo inusitado que parecia ser mais importante: a imagem de uma santa negra. Era feriado de Aparecida.

– Uma situação tão humana – disse-me Marcela, uma daquelas espanholas de pele quente e criação católica, para o seu desgosto.

Ela estava a sete ou oito anos no Brasil e me descreveu a cena:

– As crianças acenando e as senhoras emocionadas nas sacadas com a passagem da santa acompanhada pelo cortejo de motoqueiros… e eu… para a devastação da minha pseudo dignidade quase comunista, me emocionando e me emocionando sem saber porquê.

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Antes de continuar preciso falar um pouco sobre Marcela. Ela havia me apresentado Lacan, e até me presenteou com livros do psicanalista alguns anos atrás antes de voltar para a Espanha e em sua casa em botafogo me falava longamente de um dos livros que ainda não havia sido traduzido para o português e cuja tradução do título não me faz o menor sentido até os dias de hoje: “O não-sabido que se sabe do equívoco é o amor”. Nesses dias de tanta treva Marcela era luz.

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Não sei se alcancei o que ela sentiu, mas mesmo pra mim aquelas motocicletas nunca haviam parecido tão humanas. Era um grupo engraçado, todos aqueles senhores pareciam ter parado no tempo, a maioria acima dos cinquenta. Lembrei-me de ter-lhes visto algumas quintas-feiras na Praça Varnhagem no que parecia ser o encontro de um motoclube. Pareceu-me isso, mas não posso ter certeza, que a jaqueta ousada e a juventude não podem ser vestidas a qualquer momento . Talvez seja preciso um pouco de céu ou um pouco de inferno pra mágica da jovialidade acontecer com aqueles homens velhos, e um pouco de gasolina também, é claro.

Por Leonardo Ribeiro





Banalidades

6 10 2013

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Quando João Roberto terminou de ouvir sobre os detalhes dos azulejos comprados para a reforma na cozinha do apartamento de Laranjeiras e as especificidades fundamentais para o novo piso do banheirinho do terraço da casa de praia sonhou um dia poder ter força de convicção para sustentar a decisão de nunca mais na vida precisar ter outra conversa banal como aquela, mas quase desistiu do sonho quando constatou que dentre as maiores banalidades da vida desfilam imponentes as fileiras de convicções ornamentais e decisões veteranas de guerra que mesmo caducas,  cegas e surdas, lutam e resistem de forma estúpida.

Maria Julia, esperta, percebeu quando acordou sozinha mais uma vez num domingo que em breve iria sofrer, e foi embora  quase pra sempre não sem antes fazer a gentileza de quebrar a casa inteira com uma marreta.

Eu reencontrei o casal na feirinha do Lavradio algumas semanas atrás, endividados até o pescoço e magros de desespero dividiram um pastel. Tiveram que deixar os filhos com os avós e não tinham mais perspectiva de reforma alguma, mas andavam de mãos dadas. Eram pessoas estranhas e heroicas e banais… quão confusas essas decisões que se atiram contra os moinhos do tempo só para denunciar suas falsidades e não se render a parca felicidade dos covardes.

Por Leonardo Ribeiro





Salamandra Sangue

22 09 2013

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Certa vez procurava um bar mais tranquilo para tomar uma ou duas e conheci um grupo de alberguistas próximo a escadaria do falecido Selarón (que Deus o tenha). Eles me contaram sobre “Aracataca”, cidade colombiana que inspirou a Macondo de Garcia Márquez. O depoimento de alguns do grupo estavam em consonância com as descrições do famoso autor… disseram que as coisas são muito estranhas ao norte das cordilheiras de San Lucas. Um jamaicano explicou que o vértice sul do Triângulo das Bermudas que recai sobre Porto Rico tem influência na região e arremessa pra lá ventanias cataclísmicas, miasmas apodrecidos de outras eras e toda sorte de coisas sinistras…

Fiquei perplexo com a descrição da área pantanosa que isola a cidade do mar: uma escuridão sobrenatural que obrigava o uso de lanterna em pleno sol de meio-dia, barulhos estranhos a noite, vultos de criaturas deformadas, febre, insônia e as malditas salamandras sangue andando por toda a parte ao redor dos focos de luz com sua asquerosa cor coral.

Ocorreu a um deles discordar e dizer que as salamandras traziam conforto durante a solidão daquela travessia infernal porque, afinal de contas, elas não sabiam que eram feitas de sangue, nem que sua fome de luz era um excretar de escuridão algumas horas após, nem que o alimento do seu corpo produzia deformações no predador, no corpo e na alma, nem as vicissitudes da cor coral e seus efeitos no espírito do homens e muito menos que haviam conquistado morada no pior dos umbrais. O olhar da salamandra sangue era um olhar gentil e incorruptível, constatou a panamenha com olhar pensativo.

Por Leonardo Ribeiro